Prezado sr. H.
Tanto, tanto tempo. Tempo demais.
Ao contrário do senhor, peço desculpas sempre, sempre. Peço desculpas e me perco em longas, longas explicações, dou voltas e peço desculpas outra vez. E, quando quero adicionar uma pitada de drama, ou simplesmente pedir mais desculpas ainda, peço perdão.
Mas não hoje. Não desta vez. São 04h17 e o gato dorme, sr. H., bem no cantinho da escrivaninha onde escrevo. À mão. Em meus papéis verde menta, os únicos papéis que tenho na casa. São 4h18 e devo sair logo para o trabalho, meu turno começa às 6h20 nesta manhã. Ainda não há, sequer, um raio de luz que me diga ‘já é dia’. Mas já é, sr. H., um novo dia.
E estou aqui, depois de tantos meses, para perguntar: o senhor está aí? Espero que sim. Espero que bem.
Estou aqui, mas não estou. Foram meses durantes os quais, preferi não estar. Não ser, não ler, não escrever, não conjugar. Foram meses tensos, sr. H., idiotas se me permite, meses dolorosos e um pouco amargos. Meses que desejamos aos desafetos, para depois sentir pena deles e mudar de ideia secretamente. Meses intermináveis, carregados de olhares e buscas, de razões e novos sentidos para velhas dores.
Foram meses sólidos, daqueles que se atravessa como quem empurra uma barreira com os ombros, mãos postas, tração nas panturrilhas, cara de dor e esforço.
Eles passaram agora, os meses, e por isso, pergunto: sr. H., o senhor ainda está aí?
Eu estou aqui. E, durante alguns momentos ou dias ou semanas daqueles meses tão avassaladores, sim, o senhor esteve aqui. De várias formas, suas cartas – todas as que não eram a mim dirigidas, e as poucas que tinham meu nome – foram a única coisa que tive. Não o senhor, entenda e não se assuste. Não o senhor. As suas cartas.
Por isso, obrigada. Depois da explicação que disse que não daria, peço desculpas pela ausência, que disse que não pediria, e digo obrigada pelas cartas. A lembrança de palavras escritas por um estranho, do outro lado do oceano, em sua maioria para uma mulher que não era eu, foram tudo o que tive nas várias horas em que não tive nada.
Espero, realmente, que o senhor esteja aí. Que deseje, ainda, contar alguma coisa para mim. Que a vontade de cantar, de alguma forma, ainda se manifeste.
Ah, sim, eu canto. Irmão tenor, mãe professora de música, pai violeiro no que se chamava, no lugar onde cresci, de ‘casas de má fama’. Ah, sim, sr. H., eu canto, pode ter certeza disso.
Sua canção me comoveu. Sorte a dos seus vizinhos.
E sorte de Veneza.
Mereço saber como foi?
Para terminar, obrigada por elogiar meu francês. Fui um dos privilegiados, pude viver aí quando jovem, tive essa sorte, e como nos advertiu Hemingway, Paris permaneceu comigo.
Espero um envelope cor de vinho, jogado no tapete, meio comido no canto pelo gato, sr. H.
Eu sei, não deveria.
Mas uma senhora deve poder esperar por algo.
E prometo constância. Mesmo que esta não seja a minha maior qualidade.
Um beijo.
Helena.

