Bia. Quando você terminar de ler isto você terá lido quatrocentas e sessenta e sete palavras, incluindo artigos, preposições e outros que talvez os puristas digam que nem palavras são. Mas vamos dizer que sejam, então serão, e isso não faz a menor diferença no final das contas, a não ser para que eu diga a você que em cada uma dessas palavras, artigos, preposições e outros tem uma lágrima de saudade. E que essas quatrocentas e sessenta e sete palavras, data inclusa, colocadas lado a lado com as outras palavras das exatas vinte e seis cartas escritas e enviadas para você antes desta, se transformadas em lágrimas de saudade podem fazer o mundo correr o gravíssimo risco de ver nascer um rio inteiro de saudades. Um rio de saudades atravessando o mundo, Bia. Saudades daquelas que sentam à mesa na hora do café, soltam gargalhadas no meio da tarde ou fazem sombra caminhando ao nosso lado nas manhãs de chuva. E eu não entendo, mesmo compreendendo muito bem, o seu silêncio/ausência/pouca premência. Não entendo, mesmo compreendendo muito bem, porque se tem algo que você não é nem nunca foi nem nunca será, a não ser que eu nunca tenha te conhecido assim tão bem, é uma pessoa pouco generosa. Seja generosa comigo, Bia. Seja generosa e responda. Porque esse silêncio/ausência/pouca premência me dá medo. Porque tenho medo de que você esteja doente, demente, morta ou casada novamente, o que, dadas as circunstâncias, significaria a mesma coisa. Porque eu, Bia, eu já morri, e você sabe que eu morri naquele segundo exato em que deixei para trás o seu olhar e pisei no acelerador e corri a mais de cem para ir atrás de uma borboleta azul. Eu morri ali, Bia. Mas acredite: só soube que morri depois de acreditar piamente que finalmente eu ia viver, Bia. Eu vi a borboleta. Eu vi a borboleta bater as asas para mim, e alguma coisa aconteceu dentro de mim que me levou, Bia. E eu quis correr o mundo atrás dessa borboleta, que me sorria e balançava as asas e me mostrava coisas que nunca pensei existirem, Bia. Até o dia em que essa borboleta, Bia, que sorria e que ao sorrir tinha os cantos da boca que formavam quadradinhos, Bia, fechou os olhos, fechou o sorriso, fechou as asas e disse: “acabou a festa”. E só então eu descobri que borboletas são insetos da ordem dos Lepidópteros, que só vivem para colorir o mundo mas morrem em duas semanas. Só vivem duas semanas, Bia. E então eu entendi que por duas semanas eu acreditava que aquilo era a vida, mas eu já estava morto. Porque a vida, Bia, é você. A vida é você. E eu estou morto. Morto. Um beijo, H. Paris. 2011.
Rue Humboldt
“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”
Camille Claudel
Correspondência amorosa, não necessariamente de amor. Cartas dum lado do oceano para o outro, impressões, imagens. Sussurros que cruzam o ar. As eras.
André Gonçalves e Fal Azevedo
Sep
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